quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lia e Seus “Olhos de Ressaca “

Lia e Seus “Olhos de Ressaca “

Estava fazendo meu ano bíblico esses dias e me deparei com os seguintes versos (Almeida Revista e Atualizada): “Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante” (Gênesis 29:16-17). Lembro-me de, na infância, ver a gravura das duas irmãs aqui citadas: Raquel com um semblante normal e Lia com um leve estrabismo, na tentativa de captar a descrição dos versos. Isso sempre me incomodou. Será mesmo que Lia tinha os olhos assim?

temos poucas informações sobre a pessoa de Lia. Dos 32 versos que a citam, apenas Gênesis 29:17 é realmente uma descrição dela. Inferimos pouco sobre o seu caráter dos outros versos, pois, na maioria deles, é descrita sua luta pelo amor de Jacó e seu método (partilhado por sua irmã) nada frutífero. Mas nós podemos ter algumas outras pistas sobre a pessoa de Lia nestes dois versos.As duas irmãs são diferenciadas por três fatores: pela idade, pelo nome, e pela relativa beleza de cada uma.Normalmente, ao citar uma série de irmãos, a Bíblia usa a fórmula “o primeiro,” “o segundo” e assim por diante. Mas nesse caso, elas são diferenciadas por “a mais velha” e a “mais moça,” introduzindo já a fórmula usada por Labão para enganar Jacó.

A origem do nome de Raquel é bem estabelecida. רָהֵל (rahel) significa “ovelha,” em oposição ao carneiro, ou seja, “ovelha fêmea.” O nome de Raquel, na história, também reporta à sua ocupação como pastora de ovelhas. Já o nome de Lia é um pouco mais complicado. Os comentaristas se dividem quanto à origem do seu nome. Alguns, como Gesenius, ligam o nome de Lia ao verbo לָאָה (la’ah) que significa estar cansado, estar exausto, nome de Lia significa “vaca selvagem” , pode ter se derivado do acadiano ou do árabe. Para muitos, o significado do nome de Lia pode ter reforçado a interpretação de que seus olhos eram “fracos.” Contudo, se seu nome está ligado ao significado de “vaca selvagem,” há uma espécie de jogo de palavras ao descrever as duas irmãs, cada uma com o nome de um animal doméstico.

Por fim, temos a descrição da beleza relativa de cada uma das irmãs. Lia é descrita, segundo a ARA, como tendo os “olhos baços.” A palavra traduzida por “baços” é רַכּוֹת (rakkot), plural de רָךְ (rak), significa gentil, tenro, fraco, incapaz, inexperiente, delicado, terno, frágil, sensível, tímido, brando. Talvez, motivados pelo significado aparente do nome Lia, muitos tradutores viram este adjetivo como um reforço à idéia de que ela tinha olhos baços, inexpressivos, cansados. Em contrapartida, Raquel é descrita como “formosa de porte e de semblante.”

Dado o escopo semântico de rak, temos, na verdade, várias possibilidades de interpretação. Se ao invés de baços, traduzirmos rakot como delicados (ou mimoso, como ocorre em Deuteronômio 28:54 e 56), a ênfase seria de que Lia só possuía atrativos em seus olhos, ao passo que Raquel era formosa tanto de corpo como de rosto.Se continuarmos com a interpretação depreciativa, traduzindo rakot por sensíveis, ou frágeis, a ênfase seria de que Lia tinha apenas algum tipo de defeito nos olhos. Ou nem isso. Os olhos tinham de ser chamativos, atrativos, com faíscas, para que uma mulher fosse considerada bonita,sim, pode ser que o único defeito visível de Lia fossem seus olhos mais apagados, não tão vivazes quanto os de sua irmã. Talvez, ela tivesse os tais “olhos de ressaca” dos quais Machado de Assis tanto falara. Contudo, tais olhos não chamaram a atenção de Jacó.

Mesmo que não lhe tivesse cativado, Lia foi a maior responsável pelo cumprimento das promessas feitas a ele por Deus. O Senhor prometera a Jacó que as promessas feitas a Abraão e a Isaque se cumpririam através dele. Ele seria fecundo e pai de muitas nações. Raquel, com toda a sua beleza, era estéril. Lia, apesar de seu “defeito”, era fecunda, e foi mãe de seis tribos em Israel, entre as quais Judá, a linhagem real de onde descendeu Jesus Cristo, e Levi, linhagem sacerdotal responsável pela manutenção espiritual do povo escolhido. Raquel foi enterrada à beira do caminho; Lia foi enterrada ao lado de Abraão, Sara, Isaque e Rebeca no jazigo especial dos patriarcas em Macpela (Gênesis 49:22-32). Ela também foi responsável pela edificação de Israel (Rute 4:11).

Muitos acham terrível o engano perpetrado por Labão ao obrigar Jacó a se casar com alguém que ele não amava. Todavia, tal atitude deve ser observada em vista do engano de Jacó diante de seu pai. Isso, é claro, não desculpa o procedimento de Labão, mas Deus permitiu que isso ocorresse para que o patriarca pudesse sentir sobre si os efeitos da mentira.Além disso, se Jacó tivesse aceitado o casamento com Lia, que segundo a Bíblia foi inteiramente consumado (Gênesis 29:23), sem ter se entregado à bigamia (e depois a poligamia), ele teria muito mais paz em sua vida. Contudo, as constantes brigas entre as irmãs e, posteriormente, entre os filhos, fez com que a avaliação de sua vida fosse “poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida” (Gênesis 47:9). Inclusive, a legislação judaica posterior, em vista da experiência de Jacó, não permitia o casamento de duas irmãs com o mesmo homem enquanto ambas estivessem vivas.

Depois de todo o meu estudo, algumas reflexões me vieram a mente. Primeiro, cada vez mais precisamos nos aprofundar na Palavra de Deus e cuidar para interpretá-la com sadios princípios hermenêuticos. A imagem de uma Lia estrábica, depois deste estudo, para mim, pertence apenas àquelas imagens de infância que a gente tenta colocar num lugar esquecido da memória por se tratar de uma ilusão de ótica. A meu ver, Lia era tão bela que Jacó não conseguiu distinguir-lhe a beleza. Raquel o cativou com o que minha esposa costuma rotular como “beleza óbvia.” Faltou esforço da parte de Jacó para perceber a outra beleza de Lia, indistinguível a olho nu.

Segundo, muitos hoje cometem o mesmo erro de Jacó. Deslumbram-se com a beleza aparente de uma pessoa e se esquecem de pesquisar-lhe o caráter. Levados pela ditadura da beleza, que em todas as épocas e culturas teve suas próprias regras tão voláteis como a direção do vento, muitos se encantam com o invólucro e nem suspeitam do conteúdo. Entregam-se ao fascínio do exterior e se esquecem de perscrutar os recônditos do caráter de sua pretendente.

Por fim, por mais probantes que sejam as circunstâncias, por mais que sejamos colocados em situações desagradáveis, sempre vale a pena seguir a vontade de Deus. Mesmo que fosse fruto de um engano terrível, o casamento de Jacó com Lia teria sido abençoado pelo Senhor de maneiras inimagináveis. Os mandamentos de Deus são claros o suficiente para que nós os obedeçamos de maneira a ter uma consciência limpa diante do Altíssimo e sermos aptos a receber dEle bênçãos sem medida.

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